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Eusébio, Ceará, Brazil
Nasci no ano de 1940 e sou um velho espírita que vive no Brasil.
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sábado, 5 de maio de 2012

Minha História - 7 a 12 anos

Nos idos de 1950 quase não havia linhas de ônibus, exceção, talvez, para o eixo Rio-São Paulo. O trem "Maria Fumaça" era a nossa condução, lá nas Minas Gerais. Qualquer viagem de 200 km tomava um dia. Essa já era a minha segunda viagem do trem e o nosso destino: Juiz de Fora.

Chegamos à noite e até imagino o desconforto de minha mãe para lidar com três crianças dormindo. Chegamos ao Educandário, escola-internato, local para onde eram mandados órfãos sem assistëncia familiar. A Instituição era mantida pela Fundação Eunice Weaver com a colaboração da sociedade de Juiz de Fora. Destaco as pessoas de Da. Odete Ciampi e de seu pai, Sr. Ciampi, que me levaram à pia batismal da Igreja Católica que ali atuava. Deus os abençoe, onde estiverem, e, também, a todos que, ainda hoje, levantam as suas mãos para proteger e acarinhar os menos favorecidos.

Fui acordado e levado por pessoas estranhas para um banho. Diante dos apelos para estar com minha mãe, informavam que ela logo voltaria e ficaria ao meu lado. Meninos e meninas dormiam em dormitõrios separados, assim, nem o conforto da mão amiga das minhas irmãs, que deviam estar passando pelas mesmas decepções.

Sobre a minha mãe voltar pela manhã, era mentira., só voltaria a ver a minha mãezinha cerca de dois anos depois e, ainda, por apenas uns poucos minutos. O meu pai só voltei a vê-lo cinco anos mais tarde, ao deixar o colégio interno, quando já nem me lembrava da sua fisionomia.

Quando acordei naquele lugar estranho, cercado poe pessoas desconhecidas, quase todos indiferentes à minha presença ali, eu pensei que ia morrer de tanta tristeza e de tanto chorar.

Durante os primeiros dias, quando ainda podia estar com minhas irmãs, durante o dia, saíamos para os lugares mais distantes para estarmos a sós e chorarmos o quanto nos desse vontade. Ninguém se importava.

Se a terra se abrisse e eu caísse dentro não teria sido maior a minha tristeza! Imagino o que sofreu Eulina, irmã mais velha, na época com 10 anos, tendo que tentar acalmar os irmãos menores, sendo ela, também uma criança, que nem sabia que estava sendo deixada, quase abandonada, em lugar tão distante de casa. Havíamos viajado um dia inteiro de trem e chegamos à noite ao destino - o Educandário Carlos Chagas, em Juiz de Fora.

Não houve momentos de despedida, apenas uma entrega formal de crianças adormecidas. Nem posso imaginar a dor de uma mãe que entrega todos os filhos, sem direito de visitá-los normalmente.

A primeira semana ali foi de puro choro e sofrimento. Até hoje, ao relembrar, me dói o coração. Parecia que o mundo tinha se acabado para nós. Para piorar, agora ia ser separado das minhas irmãs, também durante o dia.

Como dizem não há bem que sempre dure e nem mal que nunca se acabe.

A tristeza passou ou, pelo menos, foi recolhida para o fundo do coração. As aulas, as brincadeiras e a disciplina imposta logo criaram um novo roteiro para as nossas vidinhas.

De repente,  uma nova normalidade. Todos brincavam e ninguém se referia aos pais ou parentes. Até, porque, muitos chegaram ali bebês e pouco ou nada sabiam de suas origens.

Vida que segue.  O colégio era tipo colégio agrícola, com muita área rural, onde nós até aprendíamos a lidar com tarefas de agricultura e pecuária.

Lá pelo interior menino se espalha e só inventa artes. E nós tínhamos muito espaço naquele colégio, com morros para subir e descer e, até a possibilidade de se esconder debaixo de um pé de frutas, carregadinho. Apenas o perigo era o limite para as nossas travessuras. Limite nem sempre respeitado e com as consequências esperadas: pé torcido, braços ralados, cabeças “quebradas” e unhas arrancadas aos tropeções. No final, todos sobreviviam, depois de algumas paradas, forçadas, na enfermaria.

Minha primeira e única professora do curso primário, chamava-se Therezinha Marcos Perez. Faço questão de mencionar todo o seu nome como uma maneira de agradecer o seu carinho, recheado de beliscões ou reguadas, sempre que não sabíamos as respostas certas para as questões de matemática, geografia, historia e português. Esse procedimento era normal naqueles tempos:  Muito obrigado, Da. Therezinha, por todo o conteúdo colocado dentro da minha cabecinha, aliás, uma cabecinha que só desejava que a aula acabasse para jogar futebol com a molecada. Obrigado, também, pelo gosto pela leitura, hábito adquirido naquelas aulas de toda sexta-feira, as melhores para mim.

Aprontávamos o quanto podíamos e apanhávamos o quanto merecíamos. Talvez um pouco menos do que merecíamos, já que algumas “artes” nunca foram descobertas.

Eu fico pensando em quantas histórias haveria para contar vividas em apenas cinco anos de internato. Histórias tristes, histórias alegres e, entre elas, muita coisa interessante da vida de menino. Algumas, até já contei nesse blog, como: O Corredor Polonês e O dia em que Recebi a Extrema-Unção.

O batismo, a primeira comunhão e a crisma eram sacramentos obrigatórios para todas as crianças, dentro dos padrões da fé católica ali adotada. A confissão era a parte mais difícil. Ali, éramos todos católicos e sujeitos a rezar os terços e as novenas previstas pela igreja. O medo do inferno, além de grande, era sempre reavivado pelos adultos dirigentes, até como forma de conter o ímpeto da molecada.

Recebíamos o necessário para a sobrevivência. Só me lembro de que sofria de fome crônica, onde houvesse algo para comer, sujo ou limpo, eu comia.

Feita a contabilidade de prós e contras e, descontado os dias iniciais da nossa estada ali, posso afirmar que foram cinco anos felizes da minha vida. É preciso dizer que, nesse período, eu nem lembrava mais  de como era viver com parentes, em família.

Aos meus doze anos, a família acabou reunida novamente, agora no Rio de Janeiro, quando conheci, de novo, o meu pai.

Foi difícil retomar o regime austero de uma família crente evangélica, onde não se podia quase nada, quer por morar em uma favela horizontal, quer pelas proibições religiosas e, somando-se a isso, havia a dificuldade econômica, muito braba.

Só não entendia o porque do ditado mineiro que a minha mãe sempre repetia... Filho Criado, Trabalho Dobrado...

Se me animar, depois falo mais dessa saga de viver...



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sexta-feira, 4 de maio de 2012

Minha História - 0 a 7 anos.

Todos tivemos infância e, de uma forma ou de outra, todos brincamos e fizemos "artes" em nosso período infantil. Hoje vou falar da minha infância, vivida nos campos e vales, entre as serras majestosas de Minas Gerais.

Escrevo para mim mesmo, no interesse de reviver aqueles tempos em que a vida corria despreocupada, qual um rio que vai contornando os obstáculos e, calmamente, segue em frente, para o seu objetivo, o oceano.

Na pior das hipóteses, caso ninguém se ocupe em ler, vou escrevendo, fazendo o que gosto, gastando o tempo de velhice que a  a vida me concede.

Então posso dizer: "Sou minerín, uai! Com muito orgúio, Sô!"

Em pleno período da guerra, 1940, nasci em casa, numa "casa de taipa" - habitação rural construída com parede de barro batido, aplicado sobre uma espécie de gradeamento feito com lascas de madeira, varas ou taquara (bambu). Esse tipo de construção é também designado como:  ESTUQUE, TABIQUE ou PAU-A-PIQUE.

Claro que nasci pelas mãos de uma parteira. Todos nasciam assim naqueles rincões mineiros onde um prático de farmácia e algum tratador-benzedor eram as autoridades médicas disponíveis.


O meu choro de recém nascido pode ter sido de alegria, de espanto, de fome, de dor pelo oxigênio queimando os pulmões ou, somente, pela boa palmada aplicada no meu bumbum. Seja como for, foi só a primeira das muitas palmadas que ainda me aguardavam.



Naqueles tempos, moleque travesso não tinha “refresco”, era palmada por todo lado e quase todas muito bem merecidas. Amo a todos aqueles que me deram aquelas palmadas. Eu sei que eram palmadas temperadas com amor, com aquele “toma tento minino! Você tem que crescer um homem de bem!”

Na falta do leite materno que secou rápido, talvez pela parca nutrição materna, sobrevivi pela bondade de uma vizinha de roça que, a cada dia, levava para minha mãe o pouco leite da cabra que possuía.

A família poderia ter sido de sete pessoas, mas duas meninas, minhas irmãs, não resistiram às precárias circunstâncias e à falta de recursos de saúde.  Na minha infância, quando as pessoas falavam de seus filhos logo mencionavam que dois ou três “não haviam vingado”.


Eu vinguei. Vingaram também duas irmãs: a Edir, que vive na bela Cidade de Juiz de Fora e a Eulina, que já nos precedeu nas “moradas” celestes.


Naquele fim de mundo, rural, de princípios do século passado, cabia bem a expressão de Euclides da Cunha em Os Sertões: “O Sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Permanecer vivo já era uma vitória sobre tantos fatores adversos.

Correndo atrás de bola e passarinhos, o tempo passou e eu nem sabia daquelas condições difíceis de vida que só os adultos enfrentavam.

Só percebia que havia muita alegria naquele viver simples e cotidiano. A alegria do trabalho, a alegria da colheita, a alegria da casa nova, de barro ou de tábuas, cheia de frestas, sem esquecer a maior das alegrias: A de crianças crescendo - filhos preciosos para a vivência do amor e para suprir a necessidade de novos braços para a lida das lavouras. Os adultos exibiam seus filhos dizendo: Esse vai ser bom de enxada, esse vai gostar de roçar, esse vai cuidar bem do gado. Quando muito se admitia que um ia ser um bom violeiro ou sanfoneiro.


Mas do que obrigação, era lazer ir à igreja aos domingos e nos dias santificados. Equivalia a uma festa: A melhor roupa, bem passada. O melhor sapato, ou melhor, o único par de sapatos, limpo e bem engraxado. Os homens não se envergonhavam do terno puído ou da roupa remendada mas as mulheres se esmeravam nas saias estampadas, godê, que em casa elas mesas produziam.


O futebol era a paixão dos homens. Se o adversário era de fora, o campo logo se ornava com as muitas cores trazidas pelas moças, em vestidos de festa, ansiosas para ver o desempenho dos atletas - maridos, noivos ou pretendentes - ou mesmo, para fazer vista aos jovens adversários, possíveis pretendentes.


Ninguém se importava com o fato de que o campo de jogo era frequentado, também, pelos animais que ali deixavam os seus dejetos. Era bom driblar o adversário e os montículos para evitar o constrangimento de sair carimbado.

O meu pai, o alemão, era um dos principais na hora de formar o time. Era bom de bola e, como ele, havia outros mais.


A vida seguia tranquila, até onde a pobreza e a saúde não chegavam a atrapalhar.

Aos sete anos ganhei meu primeiro sapato que nem sapato era. Ganhei uma chuteira - um estímulo ao grande craque de bola em que eu deveria me tornar - quis o destino que eu nem ficasse com a chuteira e nem, muito menos, me tornasse o sonhado craque dos sonhos do meu pai.

Foi, nessa época, que a doença separou nossa família. Sem condições de subsistência, eu e minhas duas irmãs fomos entregues ao Educandário Carlos Chagas, em Juiz de Fora, onde deveríamos permanecer, como previsto, até à maioridade. Também essa previsão não se confirmou. Permanecemos ali por, apenas, 5 anos. Depois disso a família se reuniu novamente, agora no Rio de Janeiro.

Depois eu conto como foi viver de 7 a 12 anos nesse colégio interno.






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