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Eusébio, Ceará, Brazil
Nasci no ano de 1940 e sou um velho espírita que vive no Brasil.
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sexta-feira, 23 de março de 2012

Eu fiz o Caminho de Santiago (6)



A "Cerimônia das Luzes" - Eunates:


Em plena noite escura, o que alumiava era a luz de nossas tochas. Cada um carregava a sua e íamos, em silêncio, em direção à igreja de Eunates. Seguíamos em fila indiana e compúnhamos, então, uma procissão de 6 pessoas, capitaneadas por Mark e Maria.

Havia reverência e religiosidade. Íamos prestar culto a Deus e fazer as preces da noite.


Maria nos explicou, ao acender nossas tochas, que tudo guardava conexão com as peregrinações dos romeiros dos tempos idos, quando somente a fé movia os fiéis nas romarias aos lugares santos. A cerimônia que realizaríamos remontava ao século XII e representava o culto ou as orações da noite, momento em que os romeiros agradeciam o dia de caminhada em segurança e o pouso que ali receberiam. Uma pausa abençoada para cuidar das feridas, alimentar o corpo e o Espírito.

As poucas luzes da casa tinham sido apagadas e a igreja também permanecia em plena escuridão. A única luz era a emanada das nossas tochas rústicas bruxoleando na escuridão, ora iluminando mais ora iluminando menos. O movimento das tochas e do ar circunstante fazia com que as luzes aumentassem ou diminuíssem, em momentos imprecisos, no que parecia um jogo ou brincadeira da luz com a escuridão para ver quem  poderia mais.

Lembrei-me daquela frase que diz:

"Por maior que seja a escuridão ela nunca vencerá a pequenina chama de uma vela".

Entramos na igreja que, toda no escuro, se nos afigurava ainda maior. As imagens que iam se revelando à luz que passava, pareciam nos saudar e nos abençoar. 


Formamos um semi-círculo na frente do altar. O círculo se completava com as imagens ao lado e por trás do altar.

Era um momento mágico! 

Um momento iluminado pela nossa fé, pelas tochas e pela Luz que Jesus nos enviava do céu, tenho certeza. Eu me lembrava das palavras do Mestre:  


"Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estarei Eu, no meio deles". 


Éramos seis os que pedíamos a presença de Jesus e que Ele abençoasse as nossas vidas, os nossos sonhos e os nossos projetos.

As tochas foram recolhidas a lugares próprios de iluminação e Maria nos entregou folhas de papel onde constavam as preces que iriam ser ditas. Cada um acompanhando o que ouvia, devidamente traduzido para a a sua língua materna. Em nosso caso, em Português.

Mark fez a prece inicial e Maria, a seguir, entoou um cântico que eu nunca ouvira e que devia ser antigo e parte habitual da Cerimônia. Depois cada um leu, em suas folhas e na sua língua, o trecho que lhe fora designado previamente na entrega das folhas. Todas as leituras estavam traduzidas para cada língua dos que ali estavam. Assim, entendíamos tudo e fazíamos assentimento a cada prece ou trecho lido.

Ao final, Cada um teve a oportunidade de dizer algumas palavras. Impossível não utilizar esse momento para dizer do contentamento de ali estar e participar daquela cerimônia. Enfim, agradecer a Deus e ao casal Mark e Maria pela oportunidade compartilhar momentos tão lindos, que a tradição dos tempos e da fé fez chegar aos nossos dias, aos nossos corações.

Novamente empunhamos nossas tochas e voltamos ao nosso albergue. O trajeto foi feito em silêncio, porque os nossos corações ainda preservavam os deliciosos momentos da "Cerimônia das Luzes". E com esse agradável torpor, que enlevava nossas almas, recolhemo-nos aos nossos aposentos e dormimos em paz, no pleno silêncio de uma noite nos campos da Espanha.

Após o café da manhã, todos nos despedimos como se fôssemos velhos amigos que ali se reencontraram. Retomamos a estrada e o sonho, rumo a Santiago de Campostela.


Igreja de Eunates
Enquanto foi possível,  lançamos nossos olhares para trás, buscando reter, na retina e na lembrança, aquele recanto de paz que ficará para sempre guardado em nossas memórias e em nossos corações. No alto da pequena colina mais uma olhada e mais uma foto. A saudade seria já uma companheira de caminhada.




Era a vida que prosseguia.


No pensamento uma prece singela:
Senhor! Abençoe esse casal - Mark e Maria - pessoas que vieram de lugares tão distantes para estar ali cumprindo missão tão linda. Permita, Senhor, que uma "Coluna de Luz" esteja sempre sobre a Igreja de Eunates. Que ali se perpetue como um lugar de bênçãos e de paz para todos os que tiverem o privilégio de ali estar, movidos por sua fé, por sua religiosidade ou, simplesmente, levados pela intuição de seus "Anjos da Guarda" para os equilibrarem e curarem.

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Sinto-me, agora, na obrigação de dizer que SOU ESPÍRITA mas que, o fato de não ser católico, em nada interfere com a minha religiosidade, sempre que esteja presente em lugares ou reuniões que expressem a verdadeira fé em Deus. Até pelo contrário, a minha fé será sempre mais um campo de luz para iluminar e se somar à fé de todos, porque:



DEUS É ÚNICO !




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