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Espírita - Brasil

sábado, 12 de março de 2016

BOLO DE FUBÁ FEITO NA PANELA DE PEDRA

Lembranças da vovó. Hoje acordei lembrando da minha vó, mãe da minha mãe, a vovó "Lóra" como era conhecida por todos a Da. Laurentina Cavalieri da Costa, única das avós com quem convivi até os seis anos de idade. Ela era italiana e tinha vindo para o Brasil com dois anos de idade, segundo me disseram. Morou, inicialmente em Petrópolis-rj e depois se estabeleceu na Zona da Mata de Minas Gerais - região de Manhumirim e Manhuaçu. Vivi com ela no Distrito de Assis Brasil. Os fatos que vou narrar trazem consigo 70 anos de saudade e agradecimento.

Não me recordo, claramente, da sua fisionomia, mas me vem à mente uma senhora clara, de cabelos grisalhos, presos em coque e que se afanava por todo lado para dar conta de uma casa com sete filhos, marido e agregados (netos: eu, minhas irmãs, meu pai, além da minha mãe). Antigamente era comum viverem as famílias reunidas, sob o comando da "mama"-matriarca, o que facilitava tomar conta dos roçados do fazendeiro, dono das terras. Ah! havia empregados solteiros que, também, dividiam o espaço da casa e "quase" faziam parte da família.

Mais claras são as lembranças de andarmos atrás da vovó, os pequenos da casa, implorando para que ela fizesse broa ou bolo, enquanto ela procurava, meio impaciente, livrar-se dos pirralhos, em face do muito serviço da casa, onde moravam mais de dez pessoas. Quando assentia, até para se livrar de nós, dizia: Vão catar os gravetos (pedaços de galhos, menores) para fazer as brasas.

O grande fogão de barro e grelha de ferro nunca se apagava porque as lidas da cozinha se emendavam entre o preparo de comida: café da manhã, às 5.00/6.00 horas, almoço, às 10,00 horas, jantar às 05.00/6.00 horas da tarde, ceia (refeição noturna) lá pelas 07.00/08.00 horas da noite. No espaço da tarde era hora de preparar as quitandas (pães, bolos e outros) necessários para o café da manhã e da tarde e, ainda, para colocar na sacola para as pequenas viagens de alguém. Não posso esquecer que o fogão era, também, a lareira a que recorrer nas noites friíssimas das minas gerais, naquela região de serras.

"Apanhar os gravetos" era a palavra mágica que colocava as crianças em debandada pelos arredores da casa, cada um esmerando-se em catar mais e melhores galhos secos.  E não adiantava catar pouca coisa, tinha que voltar a catar mais porque o sistema de assar o bolo era cobrir uma caçarola de pedra, tapada, com a massa dentro, espalhando as brasas ao redor e por cima. Tinha que ser muita brasa. Esqueci de dizer que o "untar" a panela por dentro para o bolo não agarrar era substituído por colocar folha de bananeira, bem tenra, para se amoldar ao feitio da panela. Depois de pronto, era só descolar a folha de bananeira e se deparar com aquela iguaria que enchia os nossos olhos de criança. Parecia mágica.

Um tempo que não era fácil porque não havia água encanada, luz elétrica, banheiro, etc. etc. Luxo necessário era ter máquina de costura, animais de montar e "charrete", essa última, coisa de rico. 

As coisas da vida simples da roça enchiam de alegria a vida de todo mundo. À noite não faltavam as histórias de saci-pererê, mula-sem-cabeça, almas-penadas e outras que aterrorizavam as crianças e, hoje, acho, aterrorizavam mais os adultos que as crianças. Aos sábados e domingos, as pessoas se reuniam entre vizinhos de propriedades, trocavam as coisas, cavalos, arreios, esporas, porcos, cabritos, vacas, touros, enfim, qualquer coisa que tivesse algum valor era mercadoria para as "barganhas", método de negociar sem envolver dinheiro como parte principal. Até porque dinheiro era coisa que quase ninguém via e quando existia era amoitado debaixo do colchão ou dentro dele. As barganhas eram objeto de toda conversa de homens reunidos, quer para realiza-las, quer para comentar sobre quem deu e quem levou "manta", vantagem ou prejuízo, em tal ou qual negócio. Nas conversas brincalhonas até surgia história de alguém que barganhou a mulher... mas isso devia ser piada mesmo.

Havia muita alegria e as pessoas riam alto e gostosamente. Por vezes, até as gargalhadas se tornavam alvo de outras risadas, por suas particularidades. As crianças brincavam de roda ou de pique e, não raro, os adultos se reuniam aos menores e todos brincavam, antes de irem dormir.  Para deitar era suficiente lavar os pés, sempre descalços, as mãos e o rosto.

Viver era difícil, sobreviver era uma meta. Em todas as casas morriam crianças de uma doença ou outra, mais por falta de médicos e remédios. Um farmacêutico (leigo) ou um tratador, muitas vezes não davam conta de devolver a saúde dos pequenos. A má nutrição era outro problema a considerar.

Mas hoje quero agradecer à vovó "Lóra" pela sua dedicação ao seu grupo familiar e pelo quanto despendeu da sua vida e saúde para que todos nós estivéssemos bem.  Ela era a última a deitar e a primeira a acordar, lá pelas quatro horas da manhã. Nem para morrer ela disperdiçou tempo do seu dia atarefado. Um dia, não acordou antes do galo cantar, tinha morrido dormindo.

Obrigado vovó! A sua vida foi muito valiosa entre nós e Deus já deve te-la recompensado.


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