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Espírita - Brasil

sábado, 17 de setembro de 2011

TULHA

Sábado de sol e céu azul em Fortaleza. Um bom dia para "fazer" uma prainha ou para contar casos à sombra, aproveitando essa brisa maravilhosa que é um dos encantos dessa cidade que adotei para viver. Dentre essas opções e, em face da minha idade, vou ficar com a segunda opção e aproveito para falar de coisas da minha infância nas Minas Gerais.

Você sabe o que é uma tulha? 

Tulha é o mesmo que paiol ou celeiro, um pequeno galpão destinado à guarda dos produtos colhidos nas lavouras dos sítios e fazendas. Nesse espaço anexo à residência rural são guardados produtos "in natura" - batatas, cebolas, alho, milho e feijão, ferramentas de trabalho e, também, alguns alimentos para oferecer como ração para o gado. Era bastante comum utilizar a tulha como espaço de moradia, sempre que escasseasse as acomodações na casa principal.

E foi assim que eu acabei morando na tulha, com os pais e irmãs. Logo após o meu nascimento, dividi o espaço de uma tulha com cereais e outros pertences das lavouras. Fico imaginando como terá sido aquela mistura de pessoas, roupas, milho e batatas, tudo acomodado num só cômodo com pouca ou nenhuma ventilação, além das frestas nas paredes de barro batido. Deve ter sido bem difícil viver lá.

Acho que ser pobre hoje é muito mais fácil, ressalvado o difícil que deve ser o fato de conviver com o tremento apelo consumista de nossos dias. Antigamente, o pobre  sobrevivia do seu trabalho e se não tinha muita coisa também não sentia falta do que não lhe era essencial.

Nossa família era muito pobre e tinha como única fonte de recursos a paga do "dia de trabalho" do meu pai na lavoura. Mesmo esse ganho  ficava condicionado à ausência da chuva e à demanda do serviço. Eram condições muito adversas... de bucólico mesmo só a calma do meio rural e as frutas que amadureciam no pé. 

Nessa dura realidade, duas de minhas três irmãs mais velhas não sobreviveram à fase de bebês. Muito deve ter contribuído a inexistência de vacinas e a absoluta falta de qualquer outro recurso médico, além dos chás caseiros que todos usavam e sabiam de cor.

Nossa casa-tulha era alvo frequente de visitas indesejadas - pequenos animais que eram atraídos pelos cereais ali guardados. Minha mãe dormia em constante sobressalto receosa de que fôssemos atacados pelos visitantes  e não raro havia alvoroço noturno pela caça aos intrusos, à luz de lamparinas.

Não sei quanto tempo vivemos naquelas condições, só sei que esse fato sempre foi assunto das conversas familiares, principalmente aquelas ocorridas na cozinha, à beira do fogão de lenha, no frio das noites mineiras. Ainda bem que os "causos" eram entremeados pelo bom cafezinho, feito na hora, onde o aroma contava mais do que tudo e dava água na boca.


Os tempos passaram e a vida se tornou menos rude. Chegaram os períodos de abastança e, se aqueles piores momentos foram provas difíceis, acho que fomos aprovados com louvor. Em nossa pobreza nunca houve revolta ou indignação, o temor a Deus e a alegria de viver sempre foram constantes em nossas vidas.

Ficaram apenas as boas histórias para contar... e a saudade dos "valorosos" pais que enfrentaram muita adversidade para nos dar o melhor que puderam. 


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Um comentário:

  1. Minas Gerais é a terra do marmelo - fruto do qual se produz a marmelada. E daí que me esqueci de mencionar que a "vara de marmelo", quase inquebrável, era também um dos indutores do bom comportamento da molecada...

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