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Espírita - Brasil

quinta-feira, 22 de março de 2012

Eu fiz o Caminho de Santiago (5)

Éris Paulino (Roma a Fátima-3.500km a pé)
Saindo de Cizur Menor a meta do dia era chegar a Puente La Reina, local onde deveríamos esperar pelo nosso amigo Peregrino, Eris Paulino, o qual vinha caminhando desde Roma (Vaticano) com passagem por Lourdes, na França. 

A caminhada do Eris incluía o Caminho de Santiago mas não terminaria na Cidade do Apóstolo, dali, ele seguiria até Fátima, em Portugal, Ponto final de sua peregrinação, com cerca de 3.500 km de caminhada. Tivemos o privilégio de caminhar com Eris (co-criador do Caminho dos Anjos-no Brasil). Com ele chegamos a Santiago de Campostela. Ele seguiu para Fátima e nós já lá estávamos esperando por ele para felicita-lo e partilhar da sua felicidade ao realizar o seu grande sonho.

Aposentados e sem filhos para cuidar, eu e Mimi íamos ao sabor do vento. Sem pressa, curtindo flores, frutas, paisagens, pássaros e, principalmente, os locais pitorescos e as muitas referências religiosas gravadas ao longo do Caminho. Vez por outra, um recanto de descanso com bancos e mesas de pedra e até imagens religiosas, em tamanho natural. Sempre um momento para mais uma prece.

Caminha-se muitas vezes por locais desabitados nos campos ou entre lavouras. Mas, eis que, de repente, o peregrino sedento dá de cara com uma geladeira repleta de refrigerantes e ou bebidas repositoras de minerais. Ufa! que sorte! Nada mal para quem já não aguentava beber a água morna levada na mochila, ao sol. Mas é melhor ter às mãos as necessárias moedas que darão acesso ao paraíso dos líquidos super gelados.

Muitas, muitas cerejas pelo Caminho
Há muitas coisas interessantes no Caminho. Além da abundante sinalização, o Peregrino vai andando e deixando sinais de sua passagem. Uma mensagem escrita no chão, um montinho de pedras a um canto, desenhos, etc. etc. Um costume interessante é o de descartar as coisas que lhe pesam ou as de que não precisa mais. Joga fora apenas o lixo. É um costume deixar, em local adequado, as coisas úteis a quem caminha. A idéia é que outro Peregrino, passando por ali, recolha o que lhe seja útil ou necessário. É uma maneira divertida de se desfazer de coisas fazendo trocas possíveis, imaginárias... Nos albergues, às vezes, há lugares apropriados para se deixar ou pegar coisas...

A caminhada do dia até Puente La Reina seria pequena, se para lá tivéssemos ido diretamente. Quando faltavam uns 5 km para nossa meta, encontramos uma variante do caminho, uma placa que indicava "Via Eunates". Já ouvíramos falar sobre a igreja de Eunates a qual, nos disseram, valeria a pena visitar. Rumamos para lá.

Essa foi a surpresa agradável de que falei. Poucas pessoas seguem por ali, não só porque é apenas um desvio, mas, também, porque lá há apenas uma igreja, isolada entre as lavouras de cevada.

Igreja de Eunates
A igreja se erguia soberano símbolo de fé, sem cidade ou vila ao redor. 
Ainda assim se respirava espiritualidade em seu interior. Na única casa, ao lado, moram Maria e seu marido - ela venezuelana e ele Holandes - ambos dedicados a cuidar da igreja e operar o Alberque que, até aquela hora, não sabíamos que ali existia. Era uma casa pequenina e o Albergue em questão resumia-se a una grande sala, no andar de cima, apenas uma espécie de sótão.

Maria nos informou que à noite fariam, ela e o marido, uma pequena cerimônia a que chamavam de "Cerimônia das Luzes", cuja tradição remontava ao Século XII. Sugeriu que deixássemos aos pés do Menino Jesus os objetos que quiséssemos que fossem abençoados com as boas energias daquele ambiente.

Eu. Essa barriga ia diminuir nos 500km restantes
Eu depositei uma pedra "citrino" que carregava desde o Brasil, a qual eu iria depositar aos pés da "Cruz de Ferro" - outro marco do Caminho de Santiago - em intenção da saúde da nossa amiga e companheira do "Caminho do Sol", onde a conhecemos. Essa pedra eu carregava no bolso para nela tocar e enviar energias de luz em favor da Miriam Rosa, que passava por rigoroso tratamento pós-operatório de um câncer. A Mimi depositou uma ametista que carregava com a mesma finalidade, a qual ela entregaria para a Miriam na volta ao Brasil, já abençoada pelas energias do Caminho de Santiago.



A tarde já se iniciava e nós pedimos e Maria que nos acolhesse como hóspedes em sua casa-albergue, naquela noite. Já estávamos interessados em ficar para a cerimônia da noite.

Maria nossa hospedeira e Mimi
Antes de recolher e carimbar nossas "Credenciais do Caminho", Maria nos  informou que observava alguns rituais simples para acolher os peregrinos e que os faria conosco se nós concordássemos. Aceitamos, sem restrições.

É preciso dizer que, via de regra, esse tipo de albergue não cobra nada pela estadia do Peregrino. Apenas é sugerido aos que se hospedam que depositem algum valor, numa caixa ao sair. Essa colaboração visa a que  outro peregrino também possa receber o mesmo tratamento, quando ali chegar.  Pretende-se uma reposição das despesas para viabilidade do serviço. No entanto, só colabora quem puder e quiser. Não há nenhuma restrição ou obrigatoriedade.

O que seriam os tais rituais?


Havia um ar de mistério que aguçava a nossa curiosidade.

Tudo acordado, ela pediu que deixássemos nossas mochilas e tirássemos as botas. A seguir nos mandou sentar à mesa, na sala contígua a uma cozinha americana. Ali ela se sentou conosco e nos serviu chá gelado com biscoitos.

Não sabíamos, mas já estávamos participando de uma incrível cerimônia.

Explicou-nos que o chá era preparado com ervas que ela mesma colhia e que usava uma mistura delas. Disse que o chá representava a acolhida que nos dava naquele momento e que teria o intuito de refazer as energias gastas na caminhada.


A conversa versou sobre temas amenos do Caminho e, também, da leitura de alguns parágrafos que ela nos dava em pequenos papéis, para que lêssemos  e para que guardássemos como lembrança de nossa estada ali.

Isso deve ter durado uns 20 a 30 minutos.

A seguir ela buscou uma bacia com água fria e disse-nos que lavaria os nossos  pés, para repetir o ato de Jesus para com seus discípulos.

A primeira ideia que vem à cabeça é dizer: Não! A senhora não deve fazer isso! No entanto, a coisa fluía com tal naturalidade e amor que eu e Mimi nos deixamos lavar os pés como quem recebe um carinho.


Aquilo foi feito com tal reverência que, no silêncio que se impunha, a única lembrança ou pensamento possível era o ato de Jesus lavando os pés dos seus discípulos, há 2.000 anos, o grande exemplo de humildade patenteado pelo Mestre Jesus.

Não tínhamos palavras tal a nossa surpresa diante desse evento tão inusitado quanto inesperado. Um de cada vez, com água limpa e toalha limpa, ela lavou e secou os nossos pés.


Até hoje me emociono ao lembrar.

Depois da cerimônia do "lava pés", Maria nos conduziu ao aposento-albergue e nos deixou para um descanso e um banho antes do jantar, para o qual ela nos chamaria no momento adequado.

Local de dormir - Anjos no teto.
Eu tomei banho e dormi. Mimi, irrequieta como é o seu natural, tomou banho e desceu para reconhecer o terreno e recolher alguma pedrinha como lembrança do local. Nunca vi gostar de pedra assim! Nossa casa tem até uma estante para guardar pedras.

O jantar foi preparado pelo Mark, marido da Maria. Quando desci todos já estavam à mesa e o jantar pronto para ser servido. O Mark se mostrou uma simpatia. Haviam chegado mais dois hóspedes enquanto eu dormia. O jantar foi alegre e descontraído. Arrumar a cozinha foi tarefa para os hóspedes do sexo masculino. Sorte que éramos três - eu e os dois que chegaram enquanto eu dormia. Foi tudo muito prático e rápido.




A noite chegou. Estávamos em área rural e noite, quando não há lua, parece mais escura para os que estão habituados com a iluminação das cidades.


Era hora da Cerimônia das Luzes.


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Um comentário:

  1. Ae cunhado...gostaria muito de fazer este caminho...quem sabe um dia...parabens meu velho. um grande abraço.

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