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Espírita - Brasil

terça-feira, 16 de outubro de 2012

O SOL NÃO NASCEU QUADRADO


Ficar preso 24 horas, como "quase" preso político, é uma outra história que eu preferia que não houvesse acontecido. Entretanto, passados 50 anos, concluo que, apesar dos percalços e momentos angustiosos, aquela época da mocidade foi um lindo pedaço da minha vida que eu teimava em não querer viver, daquela forma...

A minha prisão ocorreu menos de 3 meses depois que chequei a Astorga, no Norte do Paraná, para trabalhar no Banco do Brasil. A agência contava apenas com 8 funcionários efetivos e mais 4 mandados como adidos temporários.

Corria o ano de 1964, ano em que ocorreu o GOLPE MILITAR e a instalação da DITADURA MILITAR que duraria 21 anos no Brasil. Os generais haviam assumido o poder civil e político e o País passava por prisões em massa e perseguições de toda ordem, utilizando das forças militares e policiais, visando políticos e outros interesses que se mesclavam naquele momento confuso. Todos os militares do País passaram a condições de autoridades incontestáveis. 

Na pequeníssima Astorga, então pouco mais que um aglomerado rural as coisas continuavam calmas até que originou um movimento para prender pessoas contrárias ao golpe militar. Seria a oportunidade da cidade alcançar alguma notoriedade e ser notícia regional, naqueles momentos de turbulência.

Na elaboração de uma lista de "comunistas" não poderia faltar as pessoas atuantes no recém-criado Sindicato dos Bancários por acaso composto totalmente em sua diretoria por funcionários da pequena agência do Banco do Brasil.

Numa tarde, após o expediente encerrado as 17.30 hs de uma sexta-feira, lá estavam postados à frente do Banco o Sargento e um soldado da policia militar tendo em mãos uma lista de nomes numa folha de papel.  Foram recolhidos à prisão 7 funcionários cujos nomes ali constavam. A prisão era uma casa comum com grandes nas portas e janelas, que apenas se destinava a recolher algum bêbedo que incomodasse a população. 

Eu, como recém chegado, nem sabiam o meu nome, então fiquei fora da lista. No entanto, o subgerente Sr. Walter Rossi convocou os 5 funcionários restantes para debater a situação que obrigaria o Banco a cerrar as postas no expediente seguinte, na segunda feira. 

Entre os assuntos discutidos estava a necessidade de mandar alimentos para os colegas presos, já que a "delegacia" não tinha condições para fornecer alimentação aos presos.  Após a "vaquinha de praxe" veio a questão sobrem quem levaria os alimentos até a cadeia. Eu me ofereci para o serviço.

Ao chegar à delegacia, o sargento abriu a porta e mandou que eu entrasse para entregar a comida. A porta foi fechada e eu fiquei preso também. Ficamos ali, num cubículo de uns 6 m2, doze pessoas - 8 funcionários do Banco e mais quatro trabalhadores rurais detidos por outras causas.  O espaço não era suficiente para todos deitassem à noite, no chão duro de cimento, além do que a ninguém foi oferecida água ou a oportunidade para ir ao banheiro... 

Enquanto lá estivemos por umas 18 horas, algumas arbitrariedades (as mais significativas) ainda são lembradas facilmente. Lembro que os soldados espancavam prisioneiros sob as nossas vistas e, nesse trabalho, iam se revezando os soldados: o que cansava de bater saí e entrava na cela outro descansado. Como humilhação escolheram entre os colegas do BB um que tinha curso de Direito e "debochando" disseram: Você é advogado e merece regalias: vai lavar toda a cadeia esfregando o chão com água e sabão. E assim foi feito sob risos e deboches.

Por volta das 10.00 hs. da manhã do sábado fomos transferidos para a Cidade de Maringá-Pr. onde havia a delegacia mais próxima, para que lá fossem registradas as prisões. Ali ficamos o resto do dia, igualmente sem receber água ou alimentos. O corrido expediente daquele dia na Delegacia de Maringá não permitiu que se lavrassem os autos de prisão.  Já pelo fim do dia, mediante a interferência de um Inspetor do Banco do Brasil que se encontrava em serviço na Cidade, foi conseguida, junto à autoridade militar da região, a liberação dos detidos, após ser constatado, que não ordem judicial ou militar para as prisões.

Numa kombi retornamos a Astorga, abatidos, famintos e desmoralizados. Como seria adequado fomos todos fotografados para a edição de domingo do jornal regional de Maringá e para ilustrar a contracapa de revista Panorama, de Curitiba com a MANCHETE "Presos um time de comunistas em Astorga-pr".

A vida continou pacata e rotineira na cidadezinha de Astorga-pr. Claro que o Sindicato dos Bancários foi fechado na Cidade. Apenas nós, simples funcionários do BB, ficamos às voltas com dezenas de pedidos de explicação sobre as prisões ocorridas, como procedimento da disciplina interna do Banco do Brasil, onde havia um interventor militar, um Coronel, que se postava no mesmo gabinete do Presidente  do BB, em Brasília-DF, para as perseguições então de praxe em todas as Estatais e Autarquias Federais.

Nesse relato, omito os pensamentos e sentimentos psicológicos porque eles eram os piores possíveis com relação aos "algozes" daquela hora e quanto ao medo de ver encerrada uma carreira profissional para a qual tanto havia me preparado e com ela sonhado.

Nem vimos o sol nascer quadrado porque a minúscula cela não tinha janelas e o sol da manhã não era um privilégio naquelas circunstâncias. O sol nasceu redondo como sempre foi, mas nem vimos.


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