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domingo, 4 de agosto de 2013

EU FIZ O CAMINHO DE SANTIAGO - Campo de estrelas, Compostela.

Eu fiz o Caminho de Santiago, ou seja, andei a pé, com mochila nas costas, por 34 dias, percorrendo a distância de 780 km, de St.Jean de pied-Port, na França, a Santiago de Compostela, na Espanha - no que se denomina de "Caminho Francês". Isso ocorreu na primavera do ano de 2006, quando eu já contava a idade de 66 anos.

Digo que, se eu fiz essa peregrinação, qualquer um é capaz de fazê-la sem receio, isto porque, além de não me haver preparado adequadamente, nunca fui um esportista ou adepto da ginástica. Até pelo contrário, adepto do bom garfo, sempre consegui estar acima de um peso mais adequado. Simplificando: gordinho mesmo!

Fazer o Caminho de Santiago era um ideal da minha esposa e eu, marido receoso de deixar a mulher sozinha, em terra estranha, andando por estradas que, por vezes, cruza lugares ermos, me propus a acompanha-la, nem que fosse para percorrer uma parte do caminho.

Além de despreparado para longas caminhadas, aliás, para qualquer tipo de esporte mais radical, levava o joelho esquerdo meio estropiado, já operado por duas vezes, portanto, pouco adequado para grandes andanças. Quase sempre caminhei com joelheira que amenizava um pouco as permanentes dores locais.

No primeiro dia já soube que a tarefa não seria fácil, principalmente, quando constatei que a minha mochila pesava muito mais do que o desejável para qualquer caminhante.  No caminho fui eliminando o supérfluo e até parte do necessário, o que resultou haver começado com 12 kg nas costas e terminado com apenas 3 kg. Através do Departamento de correios o peregrino pode enviar para Santiago, em posta restante, tudo que não precisará no percurso.

O primeiro trecho, com cerca de 28 km, consistiu em atravessar o maciço dos Pirineus, subindo a montanha pelo lado Francês e descendo, no outro lado, na Espanha. Providencialmente, dividi o trecho em duas etapas, pernoitado na última pousada da subida, no lado Francês. Ainda assim, pensei que não conseguiria vencer aquele trecho. Parava a cada cem metros andados, sempre pensando em desistir, embora tantos peregrinos passassem por mim conversando alegremente, como se estivessem num piquenique.

Chegamos à parte mais alta dos Montes Pirineus e, a partir dali, iniciaríamos a descida em terras espanholas, o que me afigurava de menor dificuldade.

A vista era algo extasiante. Campos verdejantes e picos que se alternavam em todo o espaço que a visão alcançava. As pequenas nuvens brancas insistiam em correr pelo céu azul, ora se elevando, ora baixando, quando então tocavam os picos e planícies verdes, parecendo neles depositar um leve beijo. Se fosse possível, teria ficado ali, seja pela beleza das paisagens, seja pelo cansaço que me dava a sensação de que não conseguiria, sequer, levantar-me da relva onde estava sentado. 

Um pouco mais à frente e já podíamos avistar o aglomerado de casas e prédios da Cidade de Roncesvalles, local que deveria ter sido o nosso primeiro pouso do Caminho Francês. Pensando que a descida era a parte mais fácil, renovei o ânimo e iniciei a descida para logo constatar que descer é muito mais difícil do que subir, além do fato de que a trilha, naquele local, é coberta de pedras soltas, o que me presenteou com cômicas quedas, com direito a pequenas descidas, quase na horizontal. Há um caminho melhor, mais longo... Mesmo por esse atalho, minha esposa não caiu nenhuma vez, levando-me a suspeitar que quedas é um problema muito afeito aos mais gordinhos.

Quando chegamos a Roncesvalles, a torneira de água fresca, no jardim da praça, me pareceu um pedaço do paraíso, o qual se completava com a grama verde sobre a qual deitei pretendendo não me levantar tão cedo, por absoluta impossibilidade. Acho que fiquei ali, deitado, por umas duas horas,  tempo também necessário para aguardar a abertura do escritório do primeiro albergue. 

Eu tinha a certeza de que não nascera para esportes radicais e nem para caminhadas de longa distância. Isso não obstante, encheu-me de orgulho haver vencido um dos trechos mais difíceis do caminho e o fato de haver recebido o primeiro carimbo em minha credencial de peregrino, nela estampado o selo do alberque, fato que já me tornava, oficialmente, um "Peregrino do Caminho de Santiago". 

Caminhar sem a mochila, após um banho que era como um "presente do céu", foi uma sensação que nem posso descrever. Sair à noite para um belo jantar, acompanhado por um delicioso vinho tinto, foi como colocar um fecho de ouro para a primeira etapa do Caminho, já vencida.

Após uma boa noite de sono, embalado pelo vinho e pelo maior cansaço do mundo, a ideia de parar por ali cedeu lugar ao otimismo de aventurar por mais um dia, até Zubiri. Afinal, não custaria nada tentar andar o pequeno trecho de montanhas da segunda etapa. Novamente, logo me arrependi da empreitada. No entanto, chegamos lá.

E foi assim, de dia em dia, de trecho em trecho, de jantar em jantar, de vinho em vinho, que cheguei a Santiago de Campostela, já então Peregrino Diplomado do Caminho de Santiago, com direito a menção nos registro oficial dos Anais do Caminho de Santiago. 

É certo que cheguei quase desmontando, mas cheguei: vitória mais da teimosia do que do espírito de aventura. Se não conseguisse essa façanha, teria perdido para minha esposa que fez o mesmo e, ainda, seguiu em frente, sozinha, até Finisterre, quase 200 km mais a frente de Santiago.

A maioria dos peregrinos faz esse complemento da caminhada até à ponta extrema do Continente Europeu sobre Oceano Atlântico. O peregrino mais autêntico depõe as armas - roupa e pertences - em Finisterre. Ali, joga fora tudo o que não lhe será mais essencial. Simbolicamente, o Peregrino se tornou uma nova pessoa e, assim, queima os despojos da antiga pessoa. Sai dali renascido ou, pelo menos, renovado. 

Finisterre, num determinado momento da história, significava o fim das terras conhecidas.

O Caminho de Santiago é um trajeto que nasceu como rota de peregrinação, dos cristãos católicos, estabelecida para venerar o Apóstolo de Cristo, Santiago (Maior ou mais velho), o qual teve para ali translado seus restos mortais. 

Esse sepultamento deu nome ao lugar, acrescido pela ocorrência de uma chuva de estrelas "meteoritos" que teria ocorrido na noite em que ali foram aquelas depositadas aquelas relíquias cristãs: Campo de estrelas, Compostela, Santiago de Campostela.

O Caminho de Santiago é hoje um marco turístico da Comunidade Européia para o qual acorrem milhares de pessoas, a cada ano, vindas de todas as partes do mundo. É um turismo histórico, religioso e, o mais importante, barato.

Apesar da minha idade de 73 anos, ainda cultivo um vago desejo de refazer essa caminhada, agora já sabendo que qualquer um conseguiria faze-la.

Um comentário:

  1. Postagem estupenda!!!! Estava desanimada pela falta de preparo físico e problemas nos joelhos, mas vejo que pode haver uma luz no fim do túnel. Muito obrigada!!!

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