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Espírita - Brasil

sábado, 3 de agosto de 2013

No meio das minas deixadas pela Guerra.


Hoje vou contar a experiência que vivi nas Cordilheira dos Andes, entre o Chile e a Bolívia, aonde estive na intenção entabular negócio de importação.

Estávamos na Cidade de Kalama, em pleno Deserto de Atacama, aonde, no dia seguinte, iniciaríamos a subida da Cordilheira até aos 5.450 metros de altitude, um local de extração de enxofre. 

Logo de saída, surpreendeu-nos o fato de que não há areia naquele deserto e sim um solo de uma espécie de pó de pedra e  cascalho, sem qualquer vegetação, salvo uma bola de massa cinzenta, que é uma planta que rola com o vento e cada dia estará em outro lugar. A chuva, como nos informaram, só ocorre, naquele local, por cerca de 20 minutos, em cada ano, em uma só vez. 

Nesse terreno, é possível ir em veículo para qualquer direção, o solo é firme embora solto ao mesmo tempo, por andar sobre os cascalhos. Nós iríamos num Jipe Bandeirante, fechado numa cabine de aço.  

Saímos logo pela manhã e o veículo seguia por um leito usual, uma estrada no cascalho demarcada pelo uso habitual.  Após uns 20 km de monotonia, sem nada para assinalar por diferente, chegamos ao local denominado "Vale de La Luna" onde a paisagem era típica do solo lunar, ali paramos para fotografar aquela beleza exótica. Um vale acidentado de pequenas elevações de pó e cascalho alternando com depressões do terreno.

Mais à frente chegamos a um Oásis onde havia palmeiras, algumas casas e uma escassa vegetação - São Pedro de Atacama. Paramos na única lanchonete para um refrigerante e para combinar um almoço para a hora da volta, já que a nossa ida paro o Alto da Cordilheira seria bem rápida com o potente Jipe, bem tracionado.  O fato é que, na volta, não haveria almoço algum pela simples razão de que não havia alimentos.  Uma refeição, naquele local, precisa ser encomendada com dias de antecedência, para as providências necessárias.

A partir dali era só subida da cordilheira. O jipe seguia na trilha-estrada de cascalho que ali parecia demarcada com muitos tambores, nos quais havia desenhos de caveiras.  A cada dez ou quinze metros surgiam novos tambores desenhados.  A explicação nem precisou ser solicitada, os dois homens que nos levavam explicaram que os tambores marcavam os locais onde estavam enterradas "minas terrestres", herança da última guerra entre a Bolívia e o Chile, pela posse daquele território, o qual representaria uma faixa de acesso ao mar, possível, para a Bolívia.  Explicaram que só demarcaram aquelas para a segurança de viajar de carro por ali, mas que poderiam existir muitas mais ainda não descobertas.

O jipe subia numa velocidade pequena e íamos apreciando as muitas serras nas quais adormeciam inúmeros vulcões.  Houve uma hora em que podiam ser identificados oito deles, a metade deles extintos e os demais adormecidos.  Era inusitado para mim e para os dois amigos, de São Paulo, que comigo estavam: De longe cercados pelos vulcões que, na nossa perspectiva poderiam explodir a qualquer momento e, de perto, cercados por minas terrestres que, igualmente, explodiriam, se fossem tocadas.

Por fim estávamos a 5.450 metros de altitude, num frio gostoso de uns quinze graus centígrados. Era verão e temperava variava entre quinze graus, de dia, e cinco graus negativos, à noite. A vista era maravilhosa e as montanhas tinham cores diferentes, que indicavam o tipo de minério nela predominante. 

Vimos as casas dos mineiros, pequenos quadrados construídos lado a lado, contíguos e sem janelas ou portas, para que melhor resistissem ao abalos dos pequenos terremotos, usuais naquela região. Numa dessa casas tomamos um chá preparado com folhas de coca, que é comparável ao mate brasileiro ou argentino.  Também nos foi oferecida a folha de coca para mastigar, usual entre os mineiros, para diminuir, o cansaço, a fome ou a sede. Experimentei, tinha gosto apenas de folha de mato e aumentava a salivação.

Vimos o local de processamento do enxofre que era o nosso interesse, tudo muito precário, que consistia em uma autoclave destinada a proceder a primeira purificação dos detritos e impurezas do minério, após retirado da mina, tudo a céu aberto. 

Vimos, no local, duas minas de água, sendo uma gelada e outra de água quase fervente, que rompiam do solo, lado a lado, e se misturavam poucos, metros abaixo. Outra coisa interessante era estar num local de pouco oxigênio, onde qualquer esforço de andar alguns metros já significa cansaço para nós não acostumados àquela carência de oxigênio. Um amigo caiu ao solo e logo se levantou dizendo que havia escorregado mas que, na verdade, como disse depois, simplesmente viu tudo escurecer e "apagou".

Até aí, não sabíamos que seria a descida dali que tornaria inesquecível aquela viagem. Além do fato de que para baixo todo santo ajuda, nossos guias e condutores resolveram tornar mais interessante a descida desde os 5.450m de altitude, morro abaixo, sobre o cascalho solto e com o veículo numa velocidade bem maior do que na subia. Lá de trás, víamos o marcador de velocidade altrnar entre 80 e 100 km/h o que, para mim, era uma temeridade, principalmente quando jipe saía de lado se arrastando sobre os cascalhos e chegando, relativamente próximos dos tambores fatídicos.

Cheguei a pensar: Acho que hoje é o fim da linha! 

Exceto pelo sacolejo e derrapagens, parecia-nos que eram os tambores que passavam correndo por nós, como uma fila de monstros prontos a nos despedaçar.

Os nativos riam e conversavam, certamente, sabendo da tensão por que estávamos os três vivendo lá atrás.  Certamente que, acostumados àquele trajeto, apenas se divertiam com o medo que que nos causavam.

Essa foi uma daquelas horas em que agradeci o passado e encarei o futuro com calma, do jeito que viesse. Nunca me apavoro, embora possa ter medo e receio.

Nós três, brasileiros, certamente que tivemos medos diferentes, mas cada um procurou ser mais macho que o outro e nem sequer tocamos no assunto depois, nem mesmo no bom churrasco que nos foi oferecido pelo proprietário daquele empreendimento.

Hoje tenho setenta e dois anos e já vivi o que considero uma boa expectativa de vida, entretanto, à época desses fatos, ainda tinha 45 anos e filhos jovens por criar.

Não concluímos nenhum negócio com os Bolivianos e Chilenos. De tudo restou apenas histórias para contar.

Um comentário:

  1. Olá Euleir, que ótimo ler essa história a um tempo guardada, mas compartilhada com bom gosto.
    Pediria a gentileza, caso possua, de postar fotos neste mesmo post, pois será magnífico visualizar essas paisagens descritas.
    Abraços fraternos.

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