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quarta-feira, 29 de junho de 2011

VIVENDO VIDAS (Conto Infantil)


VIVENDO VIDAS (Conto infantil)

Kiko vivia com sua família no mesmo lugar que nasceu. Era um jovem alegre e despreocupado e que, como todo jovem, gostava de sair e encontrar os amigos para brincar, conversar, cantar e dançar. Também gostava de paquerar as garotas da sua idade, principalmente para se mostrar para os amigos. Era muito novo para pensar em família e compromisso.
Gostava muito da sua família mas se aborrecia por tantos conselhos que os pais lhe davam. Embora não compreendendo por que tantos conselhos, obedecia aos pais e era atencioso com amigos e vizinhos. Os adultos o admiravam e gostavam muito dele.
Kiko gostava de nadar longas distâncias, de pular bem alto e de comer as coisas gostosas de que todo sapo gosta. Gostava de se exibir pulando bem alto para colher frutinhas nos galhos baixos das árvores.
Ah! Quase me esqueço de dizer: Kiko era um sapo.
Um sapo feliz que morava no lago mais lindo do mundo, pelo menos ele assim pensava, pois só conhecia o seu lago, onde nascera.
A vida seguia tranquila e Kiko ia pulando para todos os lugares. Você sabia? Sapo não gosta de andar, gosta de pular porque diz que pulando chega mais rápido.
Gostava de ir à escola porque aprendia coisas novas todo o dia. Mesmo assim, Kiko ficava feliz quando chegava a época das férias. Podia passar o dia inteiro com os amigos, nas mais variadas aventuras.
Um dia, Kiko e seus amigos apostaram para ver quem pulava mais alto. Eles subiam no barranco e pulavam na parte mais funda do lago. Nem precisa dizer que Kiko queria sempre pular mais alto e mais longe do que todos os outros. Foi aí que começou a subir para o ponto mais alto do barranco para dar o maior pulo de todos. Enquanto subia para o lugar mais alto do barranco ia pensando: Todos vão me aplaudir, nenhum sapo havia pulado daquela altura.
Enquanto, lá embaixo, todos se admiravam da coragem do Kiko, Ele, lá em cima, começou a sentir um friozinho na barriga, de medo. Mas, pensou: Agora preciso pular de qualquer jeito, se não pular, vou pagar o maior “mico”. E sapo detesta pagar “mico”.
Ele olhava a grande altura indeciso entre pular ou pagar o maior mico. Sua decisão foi precipitada por algo inesperado: Kiko ouviu um barulhinho debaixo das folhas remexendo no galho ao lado do que estava. Curioso, olhou para o lado e quase morreu de susto: Lá estava  uma cobra toda enroladinha. A cobra estava se acomodando para tirar uma soneca, depois do almoço.
Kiko tomou um tremendo susto pois tinha muito medo de cobras. Sabia que cobras comem sapos e outros bichinhos, quando estão com fome. Com o susto, tentando se distanciar da cobra, Kiko se desequilibrou e pulou rápido para o lago.
Os amiguinhos estranharam porque ele pulou meio de lado, todo desequilibrado e meio que rodopiando no ar. Caiu na água batendo forte com o bumbum.
Doeu, mas ele não chorou. Todos aplaudiram e queriam saber com quem Kiko tinha aprendido aquele salto tão diferente.
Kiko, branco de susto, saiu da água quase sem poder falar direito. Mesmo assim, disfarçou um sorriso e disse que estava com fome e que iria pra casa para comer. Ninguém desconfiou que ele estava mesmo era morrendo de dor no bumbum.
Um dia surgiram máquinas grandes e barulhentas que remexiam toda a terra. Alguns homens iam cortando quase todas as árvores e, outros, plantaram sementes no solo. Eles estavam formando uma lavoura.
Kiko quase chorou quando viu as máquinas arrastando as suas queridas árvores pelo chão. Terminaram o serviço e os homens e as máquinas foram embora.
O sol se pôs lindo e vermelho, refletindo a sua luz no lago. Anoiteceu.
Naquela noite choveu e, alguns dias depois, nasceram plantas ao redor de todo o lago. As plantinhas cresceram e Kiko gostou quando surgiram as flores. Gostou, também, quando surgiram lagartas para morar naquelas plantas.
Que beleza! Agora ficou ótimo, quando dava fome, era só pegar uma lagarta ou duas e comer.
Mas os homens que plantaram a lavoura não gostaram de ver aquelas lagartas comendo as plantas. Voltaram mais tarde e jogaram uma água de cor esquisita sobre as plantas e as lagartas.
No dia seguinte, todas as lagartas estavam mortas e, junto com elas, morreram também todos os bichinhos que moravam ali no meio daquelas plantas. Morreram grilos, minhocas e os filhotes de passarinhos recém nascidos, nos ninhos. Foi horrível. Todos estavam tristes com a morte dos bichinhos. Mas aquela desgraça estava só começando. Choveu forte e a água da chuva caiu sobre as plantas e escorreu para o lago.
A água da chuva que escorreu para o lago levou com ela uma parte daquela água venenosa que os homens haviam jogado nas plantas e que matou as lagartas e grilos. Aquela água estava misturada com veneno.
Foi um problema muito sério. Morreram todos os peixes e quase todos os sapos. Sobreviveram, apenas, os sapos mais jovens e mais fortes que saíram rápido de dentro da água. A tristeza foi completa no lago, quase todos os sapos morreram, entre eles os pais e tios do Kiko.
Vieram outros homens para saber o que estava causando a morte de tantos bichos. Examinaram a água e viram que ela estava poluída com veneno.
Eles disseram para os homens da lavoura que não jogassem mais aquele veneno nas plantas, mas, ainda por muito tempo, os poucos sapos que restaram no lago ainda tinham muita dor de barriga por causa da água poluída.
Sem as árvores ao redor, o lago diminuiu de tamanho. Chovia menos e as águas evaporavam rapidamente. Não havia sombras para refrescar a água.
Kiko tinha saudades do lago antigo, quase perdido no meio de tantas árvores. Agora, o lago parecia uma poça de lama.
Havia pouca comida e os sapos que restaram foram embora para encontrar outro lugar para morar. Kiko ficou. Já estava velho e não tinha forças para acompanhar os mais novos numa longa caminhada. Ele se sentia cansado, mas não disse nada aos que partiam para que não pensassem que ele estava muito velho e fraco.
Kiko ficou só. Muito triste, ele já não tinha nem vontade de procurar comida para comer. Suas pernas doíam e, por isso, ele só pulava quando era preciso.
Até a cobra tinha ido embora para morar muito longe dali. Ainda bem, pelo menos com a cobra ele não precisava mais se preocupar.
Os dias se passaram e Kiko foi ficando mais velho e cada vez mais fraco.
Um dia, ele saiu para procurar alguma coisa para comer. Estava difícil encontrar comida. Deu muitos pulos pela margem do lago e não encontrou nada pra comer. O sol estava muito quente e Kiko parou para descansar na sombra da raiz seca de uma das árvores que os homens haviam cortado.
Ali deitado na sombra da raiz, pensou: Acho que já estou muito velho, foi só dar alguns pulos e já fiquei tão cansado. Sentiu-se um pouco zonzo. Devia ser fome, pensou, pois ainda não havia comido nada naquele dia.
Deitou-se ali e ficou pensando que aquela raiz seca era o que restava de uma árvore tão grande e bonita que ali havia. Lembrou das brincadeiras de criança e de como eram gostosas as frutinhas que  caíam na água.
Assim pensando, fechou os olhos e sentiu que adormecia. Mas, que estranho! Era um sono diferente. Sentia-se muito tranquilo e parecia até que flutuava no ar.
Ainda pensou, puxa! Está tão bom que nem quero mais acordar. Que sono gostoso, pensou! Melhor seria nem acordar.
Parecia haver dormido um bom tempo, quando, de repente, ouviu sons conhecidos. Era o som de sapos brincando. Deviam ser muitos e estavam alegres. No começo os sons pareciam distantes, mas, aos poucos, os sons se aproximaram e já parecia que brincavam ali perto dele. Deve ser um sonho, pensou, e continuou de olhos fechados.
Os sapos cantavam, dançavam e sorriam muito. Kiko queria abrir os olhos mas ao mesmo tempo temia que o sonho se acabasse.
Enfim, vencido pela curiosidade, Kiko abriu os olhos bem devagar e teve uma grande surpresa: Estava diante do lago mais lindo que poderia imaginar.
Era um grande lago todo cercado de árvores coloridas. O céu azul refletido na água parecia ser o próprio fundo do lago. Kiko acho tudo muito lindo.
Agora tinha certeza, era um sonho, o sonho mais lindo que já havia sonhado. Assim pensando, fechou os olhos rapidamente para o sonho não acabasse.
Não adiantou.
Abriu os olhos de novo, quando uma linda sapinha que estava bem ao lado dele, falou: Oi! Até que enfim você acordou! Meu nome é Isabel. E, a seguir, gritou: Ei, pessoal! O rapaz acordou! Venham cumprimentá-lo.
Surpreso, Kiko deu um pulo e logo se viu cercado por muitos sapos que o abraçavam alegremente. Parecia que estavam felizes com a sua chegada e que estavam ali reunidos para o receber. Eram todos jovens e bonitos, pensou Kiko.
Todos se apresentavam e diziam os seus nomes. Eu sou o Maneco, dizia um, eu o Felipe, falava o outro. Todos sorriam e lhe davam as boas vindas. Kiko ainda pensava que tudo era um sonho. Agradecia o carinho de todos e pensava: Que pena que o sonho acabaria e que ele teria que voltar para o velho lago de lama e para a velha raiz seca onde dormira.
Ei, Kiko! Pare de pensar em sonho, em lago de lama e em raiz seca, falou o Rafa, que acabara de chegar. Você não está dormindo e nem está sonhando. Você está na sua nova casa.
Muito confuso, Kiko perguntou: Como sabe o meu nome? Como você sabe no que eu estou pensando?
Puxa! Quantas perguntas! Falou o Felipe. Deixa que eu respondo, disse Isabel. Veja Kiko, observe que você tem um corpo mais bonito, mais jovem e mais forte do que aquele velho corpo que você abandonou nas margens do lago poluído. E essa aqui é a sua nova casa. O Criador de todos os lagos e rios e, também, de todos os sapos, criou muitos lugares como este para onde vêm  todos os seres depois que abandonam o corpo velho, na terra.
Aqui sabemos os nomes de todos os moradores e podemos saber no que cada um está pensando. Podemos até nos comunicar apenas pelo pensamento. Não se preocupe com tantas novidades, continou Isabel, logo você entenderá como é a vida por aqui. Enquanto se adapta neste novo mundo você terá sempre a companhia de um de nós. Poderá perguntar o que quiser.
Ah! Antes que me esqueça, se você encontrar alguma cobra por aí, não precisa ter medo, aqui os animais não se comem uns aos outros, pelo contrário, todos são amigos e brincam juntos.
Kiko não compreendeu muito bem aquilo de poder brincar com cobras, mas resolveu não fazer novas perguntas.
Os novos amigos o levaram para conhecer o lugar. Havia lindas árvores e muitas flores, inclusive, algumas que ele nunca havia visto. Kiko estava feliz. Era como se ele tivesse acabado de chegar a uma festa. Havia muitos enfeites, música e brincadeiras.
Kiko estava feliz com aquele novo corpo, mais novo, mais forte e mais bonito, como dissera Isabel. Estava feliz com a sua nova casa e por ter muitos amigos novamente.
Os dias se passavam e Kiko ia conhecendo novos amigos novos amigos com os quais podia brincar e jogar. Gostava dos novos amigos, mas, entre todos, preferia passar mais tempo na companhia de Isabel, aquela que primeiro falou com ele quando chegou.
Gostava muito de estar com ela. Isabel percebia os pensamentos de kiko e lhe respondia, também em pensamento, que ela gostava muito de estar na companhia dele. Eles iam juntos a todos os lugares.
Certo dia, ela o convidou para conhecer um novo lugar. Você vai gostar muito desse lugar onde vamos hoje. E vai gostar mais ainda da surpresa que lhe espera, disse Isabel.
Que bom, respondeu Kiko: Adoro surpresas.  vamos logo porque já estou curioso para saber o que é.
E lá se foram os dois pulando alegremente.
Chegaram a um lindo jardim onde havia um grande lago todo cercado por árvores e flores. Kiko ficou impressionado com a beleza e com o perfume das flores que impregnava todo o ar.
Kiko não notou o sorriso travesso de Isabel, mas percebeu que as flores, vez por outra, mudavam de cor. Intrigado, ele olhou para Isabel que sorria. Kiko nem precisou perguntar.
Isabel explicou: Aqui as flores podem ter a cor que quisermos. As flores mudaram de cor porque eu assim desejei. Experimente você também: Concentre-se apenas nas flores e pense nas cores que você deseja que elas tenham.
Kiko fez o que Isabel mandou, concentrou-se fortemente e logo começaram a aparecer flores azuis, brancas, vermelhas e amarelas, suas cores prediletas.
Isabel estava feliz com a alegria de Kiko pelas flores que ele coloria com o pensamento. Agora eu vou pensar algumas cores também, disse Isabel, e logo começaram a surgir flores cor-de-rosa, violeta e de tonalidades marrons, as quais se mesclavam àquelas flores coloridas pelo pensamento de Kiko.
Que legal! Agora o Jardim está muito mais bonito, disse Kiko. Eu nem sei como te agradecer por esta bela surpresa que você preparou, Isabel.
Mas esta não é a surpresa que lhe prometi, respondeu Isabel. A surpresa vai ser muito melhor.
Se você quer mesmo saber qual é a grande surpresa, você vai ter que fechar os olhos e pensar em quem mais você gostaria que estivesse aqui, agora.
Kiko obedeceu. Fechou os olhos e pensou. Pensou que a sua felicidade só poderia ser maior se ali estivessem os seus pais.
Ainda de olhos fechados, Kiko identificou o perfume de sua mãe, aquele perfume que ele tão bem conhecia. Entre ansioso e assustado, nem esperou ordem para abrir os olhos. Seus olhos estavam bem abertos mas ele nem podia acreditar no que estava vendo: Sua mãe estava ali, na frente dele com os braços estendidos para o abraçar.
Mamãe! Papai! Que felicidade! Vocês também moram aqui? Como está a vovó? E o vovô? E os meus tios que também morreram por causa da água poluída do lago? Eles estão aqui? Kiko perguntava sem nem esperar pelas respostas.
Calma, meu filho! São muitas perguntas. Primeiro vamos nos abraçar e agradecer a Deus por esse reencontro, disse-lhe sua mãe. É isso mesmo filho, acrescentou o pai, dando-lhe um abraço apertado. Vamos aproveitar bem esses momentos de felicidade por estarmos juntos outra vez.
Enquanto o abraçava, seu pai lhe respondeu: Os nossos parentes estão bem e você poderá vê-los numa outra oportunidade, quando for possível.
A tarde foi muito agradável e todos se alegraram muito. Mergulharam no lago e relembraram muitas histórias. Kiko, com muito orgulho, mostrou aos pais que já sabia colorir as flores com o poder do pensamento.
Ao fim da tarde, a mãe de Kiko disse: Filho, agora eu e seu pai precisamos voltar para casa. Nós moramos ao pé daquela montanha mais alta onde há uma bela cachoeira, cercada de árvores cobertas de flores vermelhas. Você vai ficar morando aqui com os seus novos amigos. Poderemos nos ver sempre que quisermos. Estou certa que a Isabel vai cuidar bem de você.
Isabel abaixou os olhos um pouco encabulada. Com o balançar da cabeça sinalizou um sim.
Com beijos e abraços, todos se despediram.
A mãe de Kiko não era diferente das outras mães. Ela tinha um último conselho para o seu filhinho: Continue sendo bom e atencioso com todos, como sempre foi. E não se esqueça de agradecer a Deus pela vida que nunca se acaba.
Kiko estava muito feliz. Ele e Isabel acenaram quando os pais de Kiko desapareceram na curva do caminho.
Duas lágrimas surgiram nos olhos de Kiko. Eram lágrimas de felicidade.
O mais surpreendente foi que essas duas lágrimas, em vez de caírem no chão, subiram para o céu e se tornaram nas duas estrelinhas mais brilhantes da noite que cobriu o jardim das flores coloridas pelo pensamento.
Naquele dia, nasceu ali um grande afeto que uniu os corações de Kiko e Isabel. 
Será que a mamãe do Kiko já sabia desse final feliz?

Euleir Eller

Fortaleza, dez/2003.

Um comentário:

  1. Adorei!
    Que bela maneira de abordarmos um assunto tão complexo para nossas crianças; a espiritualidade, a vida após a "morte".
    Um forte abraço.
    Celeste

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